Joeri Jansen – Dalstar: ARICHID + Renato Schebela – Amsterdā: Bichas Vermelhas Promoven a Festa

Dalstar: ARICHID

Gepubliceerd op 1 apr. 2009

For RICH magazine DALSTAR wrote ARICHID.

This video is a registration of ARICHID performance by DALSTAR at the release party of RICH magazine on February 26th in Amsterdam.

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https://youtu.be/ahQX7awSb1c

Amsterdā: Bichas Vermelhas Promoven a Festa

LAMPIÃO da Esquina, 1 december 1979, p. 11

FESTIM

Homossexuais de toda a Europa e América do Norte participaram em Amsterdam, entre os dias 15 e 20 de abril passado, do ‘Mannen Nietwaar” (Homem, não é mesmo?), um festival de artes homossexuais promovido pelo mais antigo grupo de ativistas da Holanda, o Rode Fllkken (Bichas Vermelhas). E um fato curioso que envolveu a realização do evento: depois de muito batepé echoraj ingos os organizadores receberam um auxilio de 8.500 dólares do governo holandês (17 mil florins).

Durante cinco dias, as cinco mil pessoas que tomaram parte da vasta programação — filmes, peças teatrais, recitais de poesia, performances, shows musicais — entre homossexuais e heterossexuais, colaboraram conscientemente ou não, para cumprir com o objetivo primeiro pretendido pelos Flikkers, ou seja, a desmistificação do termo ‘Homossexual” sempre ligado a idéia de opressão.

Mesmo com todo o alarde feito em torno do evento — alguns jornais holandeses, como o do Partido Comunista, por exemplo, chegaram a publicar matérias de página inteira — os organizadores do evento não se deram por satisfeitos, já que algumas das metas pretendidas com a realização do Mannen Nietwaar não chegaram a ser concretizadas.

Ruud Ploegmakers, da comissão organizadora do evento, um holandês cortês, como todos os seus conterrâneos, e que fala fluentemente o português após três anos de estudos de nossa língua na Universidade de Amsterdam, concordou em receber o “Lampião” logo após o encerramento do evento, e falou sobre as idéias do grupo e a questão homossexual em seu pais.

Ploegmakers explicou que a promoção não teve caráter de luta política, mas sim, foi efetivada para chamar a atenção para as “nf-loverdades”, que têm sido responsáveis pela opressão que acompanha psicologicamente indivíduos do mundo inteiro, e que os faz assumir a posição de ‘Homossexual” perante a sociedade.

ARMA

Para isso, os Flíkkeri se utilizaram da síntese de um estudo, considerado “histórico”, e que vem sendo desenvolvido por professores c alunos da Universidade de Amsterdam, a pedido da revista Homotogle, e com base nas idéias de Foucault: “A homossexualidade é uma viatura, e de mais a mais, os homens rolam rapidamente….”

“Ê uma teoria relativista, salientou Ruud. através da qual se pretende terminar com o mito da ‘homossexualidade eterna, comparando os criadores do termo “homossexualismo” aos engenheiros e inventores do automóvel, da tampada elétrica ou do avião.”

O que os Roote Fllkken querem, em outras palavras, após realizarem anos de estudos e pesquisas sobre obras de autores de várias nacionalidades – da linha de Freud á Hirschfeld, é mostrar que o termo ‘Tiomos sexual” é uma invenção como o automóvel, surgida no final do século passado, e cuja tendência com o decorrer dos anos é de “esvaziamento”, ou desaparecimento; assim como aconteceu com o uso da “sodomia” hoje praticamente esquecido ao vocabulário corrente.

O tema “A Homossexualidade e a Invenção do Automóvel” deveria ter se constituído como a principal atração do Mannen Nietwaar. Entretanto, as dificuldades financeiras enfrentadas pelos Fllkken holandeses, obrigaramnos a modificar a programação original, culminando com a suspensão do convite a ser efetuado À vários escritores e estudiosos europeus, que participariam de um painel espositivo sobre o assunto.

Os organizadores do evento alegaram que a principal causa desse insucesso residiu na omissão do governo holandês para uma promição de tal nível. Há um ano, desde que iniciaram os preparativos, os Fllkken vinham pleiteando uma considerável verba junto ao Tesouro holandês, da ordem de 100.000 dólares (200.000 florins). Entretanto, sempre alegando a existência de uma crise financeira, o governo negou e auxilio, cujo pedido já havia sido restringido a 20 mil dólares numa segunda tentativa. Talvez temendo uipa desmoralização, dois dias antes do inicio do Fes¬tival, um alto funcionário do Ministério da Fazenda telefonou aos Fllkken, confirmando a última decisão do governo — dezessete mil florins (Cr J 450 mil aproximadamente).

Nesta luta, os FHkkeri contaram com o apoio do parlamento holandês, especialmente do líder trabalhista Voggd, que juntamente com outros deputados, foi um dos principais incentivadores do protesto feito pela delegação holandesa junto à Comissão de Direitos Humanos do Parlamento Europeu de Strasbourg, contra a discriminação da legislação da América do Norte ao ingresso de homossexuais no pais como imigrantes O fato foi motivo para uma manifestação das bichas holandesas em frente à Embaixada Americana em Amsterdam, e também do Parlamento Europeu junto à sede das Nações Unidas em Genebra.

POSIÇÀO

Os Rooie Flikkers, a exemplo de outros grupos de homossexuais holandeses, possuem forte influência junto ao parlamento holandês. Fundado por um grupo de dez dissidentes do antigo COC — Culture en Ontspannings Centrum (Shakespeare Club, fundado em 1959), era considerado até há pouco como um dos mais radicais grupos de homossexuais da Holanda.

Eles foram os primeiros a levarem as bichas para as ruas em passeatas de protesto contra a repressão, e chegaram a ter problemas com a política, respondendo com êxito a um processo judicial numa cidade do norte do pais. Também foram os responsáveis, durante dois anos; pela publicação de um jornal intitulado ‘Mietje Pietje” (tradução equivalente a Pederastas Travestidos, nome surgido a partir da forma de protesto público que promoviam, e termo pejorativo utilizado popularmente para os homo holandeses).

Segundo Ploegmakers, hoje os homossexuais da Holanda estão presentes em todos os setores da sociedade, e todos os partidos políticos, incluindose o Liberal, que é o partido do governo, possuem suas facções homossexuais organizadas. O Partido Comunista também possui o seu grupo homo.

Para a divulgação do Mannen Nietwaar, por exemplo, os Flikkers contaram com o apoio dos três principais jornais do pais, incluindose o NRC-Handebblad de Rotterdam, o de maior circulação, e o órgão do Partido Comunista Holandês.

PROGRAMA

Apesar do desfalque na programação, o Festival Mannen Nietwaar teve atrativos importantes, como a apresentação do primeiro filme gay do mundo, rodado em 1919, sob a direção de Richard Oswald e a participação, como ator, do psiquiatra e autor homossexual Magnus Hirschfeld. O empréstimo desta obra, de propriedade de um Museu de Berlim Oriental, foi possível graças ao empenho do Ministério dos Assuntos Exteriores da Holanda em favor dos Flikkers.

“Diferente dos Outros” (Anders Als Die Andern) é o título da obra. Foi rodado em Berlim, — considerado o laboratório da Europa na divulgação do homossexualismo no início do século, com o objetivo de fazer publicidade em torno da questão, e para mostrar claramente o início de um processo de repressão que nasce com o adven¬ to das idéias nazis. O filme é mudo e tem legen das em ucraniano.

Ele conta a história de um violinista homo que se apaixona por um aluno e acaba por suicidarse, quando sua relação é descoberta por um amigo que passa a lhe fazer uma série de chantagens. Seu companheiro, desolado, tenta igualmento o suicídio, momento em que entra em cena o doutor Hirschfeld incentivando- o a usar a morte de seu companheiro como “bandeira de luta” para divulgar o homossexualismo e colaborar para a sualibcçaçãç pç pais.

Da programação de filmes, também foi presentada uma obra de Derek Jarman intitulada Sebastianne, com narrativas em latim, e que tenta provar que São Sebastião era homos sexual. O filme, de procedência ngfcsa. tc\e ce> nas rodadas na Sardenha e data de 1976. Juntamente com a película alemã foi um dos grandes sucessos do festival. Apareceram ainda Nighthawks, de Ron Feck, rodado na Inglaterra em 1978, com a participação de Paul Hallant; Du Er Ikke AJene- Je Bent Niet Allen, obra dinamar ¬ quesa, de 1978, dirigida por Lasse Nielsene Ernst Johansen; Tiergaerten,  de Loihar Lambert, rodado em Berlim e apresentado em avantpremiére, e Nous fctions Un Seul Homme, de Philippc Vailois, rodado na França em 1979.

MÚSICA, POESIA, TEATRO e LITERATUA

Na área musical, ganharam destaque os shows do cantor gay francês Laia, que já participara em 1978 do Festival de Filmes Gays “Gluren in Het Donker”, também promovido pelos Fllkken com a apresentação de cerca de 80 películas, e os Softies, músicos que pertencem ao grupo promotor do evento, e que apresentaram um musical teatral intitulado ‘Stad Shock Mannen”.

No Teatro, as variedades foram muitas, do sério à chanchada, com destaque para a comédia do escritor belga Conrad de Trez: ‘Tante Trouth uit Bdhitc”. A obra de Trez é bastante conhecida na Europa, cé num de seus livros que ele conta a descoberta de sua homossexualidade durante um carnaval no Rio. Robert Paírick, pivô do recente episódio sobre a legislação americana, dirigiu a peça T-Shirts.

Sobre Patrick, que hoje é naturalizado holandês. sabe-se que foi quem protuoou todo o protesto do parlamento europeu junto às Nações Unidas, já citado anteriormente. Segundo contase, ele dirigiuse a Embaixada Americana na Holanda, acompanhado de um grande número de repórteres dos principais jornais do pais, e exigiu um visto de entrada nos Estados Unidos para visitar familiares. O visto foi concedido somente após o movimentado protesto que envolveu os políticos holandeses. .

Voltando ao Mannen Nietwaar, bastante aplaudido? ainda pelo público, que lotou sempre as salas de espetáculos, o show de Koos Dalstra. holandês que relaciona a existência dos porcos á dos homens; a performance do israelense Hezy t ^Uu fitar W airi.. onrlr otiUca o &om como símbolo energético numa sala totalmente ás escuras, e o trabalho de um grupo inglês, que utilizando-se do público como cenário, tenta mostrar a repressão policial em Londres.

Na poesia ganhou destaque a obra de Kaváfis, declamada por homossexuais holandeses. Também foi promovida una noite de autógrafos, com o lançamento da primeira coletânea de autores homossexuais holandeses, editada pela Uitgeverij Blaauw, sob a coordenação de Gert Hckma, membro dos Rooie Flikkers. A obra se intitula Mannenmaat — Rekenboek voor jongens zonder meisjes (Medida, Homem de Um Livro de Matemática para moços sem moças), e reúne 18 autores, entre contistas, cronistas e poetas .

Além disso, varias Gayshopps foram instaladas no pavilhão do Melkweg, onde se realizou o evento, com a venda de livros, revistas, decalcas, posters, cartões postais, distintivos, jornais, slides, enfim, todo tipo de material consumido pelos participantes.

Reduto do movimentounderground na última década, o Melkweg se localiza no centro de Amsterdam, onde antigameme funcionava uma antiga “usina de leite”, hoje transformada em várias salas de espetáculos. E o Mannen Nietwaar, ali realizado, serviu também como momento de confraternização para homossexuais e heterossexuais de toda a Europa c América.

No recinto desse centro de artes da Praça Leidsplein, onde viu-se todo tipo de gente — do turista alemão, ao hippei decadente ou ás bichas travestidas — muita comida, bebida, dança e frescura rolou nos cinco dias de festa incessante. E o mais importante é que em nenhum momento se notou a presença de repressão policial, mesmo considerando que a Gentral de Polícia da capital holandesa localizase em frente ao prédio do teatro.

Nem mesmo na madrugada de segunda-feira, dia 21, quando após ter o público dançado o último rock do evento, um grupo de punks demolia e pichava um automóvel estacionado à porta principal do Melkweg, em protesto pelo final da música.

LAMPIÃO da Esquina, 1 december 1979, p. 11

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